Victor
Kingma
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De minha saudosa mãe Carolina, tantos ensinamentos

MãeNos anos sessenta,  morávamos em Juiz de Fora e eu estudava, à noite,  no Grupo Escolar Estevão de Oliveira, que ficava em frente à Catedral Metropolitana. Cursava a quinta série primária, uma espécie de preparação para o Ginasial.

Eu sempre fazia,  a pé,  o  percurso que separava o grupo de minha casa,  ao longo da Avenida Rio Branco, a  mais extensa  da cidade. Até porque nem sempre tinha grana para pagar a passagem do bonde

Certa vez  eu  retornava da escola e estava  quase chegando em casa, quando observei um objeto cair da bolsa de uma senhora muito elegante e bem vestida, que havia descido do bonde,  logo à minha frente. Pensei em gritar para avisá-la, mas achei que talvez fosse algo que tivesse jogado fora. A rua estava deserta, pois já era quase meia noite. Quando me aproximei, encontrei uma carteira muito bonita, de fecho dourado. Logo percebi que a dona era uma pessoa de posses. Fiquei então observando a senhora, e a vi entrar na portaria de um luxuoso prédio, um dos poucos existentes à época na cidade, e que ficava a uns dois quarteirões do velho casarão onde morávamos.

Na minha curiosidade de menino, abri a carteira. Então deparei com uma espécie de caderneta, que mais tarde viria a  saber ser um passaporte. Tinha também uma grande quantidade de dinheiro, e algumas notas verdes, moeda desconhecida para mim. Cheguei em casa e mostrei para minha mãe, contando, inclusive, que sabia de quem era. Vivíamos em grande dificuldade financeira na época, mas, mesmo assim, minha mãe me ordenou que fosse imediatamente devolver a carteira  à sua proprietária. Se ganhasse alguma recompensa por tê-la encontrado, aí sim, poderia aceitar.

Desci correndo as escadas da minha casa e fui disparado entregar a carteira, pensando no caminho o que poderia comprar com a gorjeta, que certamente iria ganhar. Quem sabe comprar muitos pacotes de figurinhas para completar o meu album.  Subi correndo a rua íngreme, com várias árvores e casas luxuosas, e cheguei exausto à portaria do prédio. Aí notei um alvoroço, com algumas pessoas procurando algo na rua. Conversei com o porteiro, um velho boa praça, que logo me indicou o número do apartamento onde a senhora morava. Subi as escadas até o terceiro andar e toquei a campainha.

A mesma senhora, pertencente à “Alta Sociedade Juiz-forana”, que vi descer toda elegante do bonde, veio me atender, descabelada e histérica, com a cara manchada pela maquiagem derretida.

Aí , ao me ver com a carteira,  ela a arracou gosseiramente da minha mão e bateu com a porta na minha cara, sem ao menos dizer muito obrigado. Voltei pra casa revoltado com a atitude daquela burguesia podre e comentei  com minha mãe. Ela, sem demonstrar nenhum sentimento de revolta, e  com a sobriedade e paz  de sempre,  apenas me consolou:

–   Nunca se preocupe com o comportamento e as atitudes erradas das pessoas, meu filho…

–  “O  importante   é que você  faça a sua parte.”

Descanse em paz, onde quer que a senhora esteja.  E minha eterna gratidão por tantos ensinamentos, minha mãe.

Mesmo  sem ter a sua sabedoria procuro  fazer sempre a minha parte, conforme a senhora nos ensinou.

Victor Kingma