Victor
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 Prefiro minha roça

 

caipira-2

Sá Maria era uma senhora, já de alguma idade, que lavava roupa para várias famílias do lugarejo. Na segunda-feira era comum vê-la, ladeira acima, levando a trouxa de roupa suja para lavar, ou na sexta-feira, ladeira abaixo, trazendo a roupa lavada e engomada para entregar. Embora as roupas sempre viessem muito limpas e impecavelmente passadas pelo ferro a carvão, sempre apresentavam cheiro de fumaça. Isso ocorria porque os varais da pequena casa onde morava ficavam muito próximos da chaminé do fogão à lenha.

Sá Maria raras vezes tinha ido à cidade e, certa feita, em uma viagem de trem, começou a gritar quando este entrou em um túnel. Achava que o trem havia sido engolido por um enorme bicho.

Era casada com seu Neca, um sujeito bom e pacato, mas que se transformava e ficava violento quando bebia umas pingas.  Muitas vezes Sá Maria chegava nas casas para entregar as trouxas com o rosto todo machucado pelas surras do marido. Envergonhada, sempre dizia que tinha caído da escada ou na beira do rio, quando lavava as roupas.

Um dia seu marido arranjou um emprego na cidade e foram tentar a sorte. Pouco tempo depois, após tomar umas “carraspanas” no botequim da esquina, seu Neca chegou bêbado em casa e começou a espancá-la. A vizinhança, ouvindo seus gritos, chamou a polícia, que logo o prendeu. Depois de lhe dar alguns corretivos com cassetetes mineiros, os policiais o colocaram, aos empurrões, no camburão.

Vendo o marido preso e sendo conduzido para a delegacia, Sá Maria, embora ainda um pouco tonta e machucada pelas pancadas recentes, começou a gritar desesperada:

– Sorta o meu marido! Sorta o meu marido!

–  Quero vortá pra roça!

– Na cidade a gente num pode nem apanhá sussegada!

 

Victor Kingma

Do livro a Oficina do Tião sapateiro