Victor
Kingma
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O velho mestre

Histórias do futebol

58_Folha Seca

Assim que terminou o treino coletivo naquele grande clube, o treinador reuniu os seus melhores chutadores para exercitarem cobranças de faltas.

Toda uma infra-estrutura, então, foi  cuidadosamente montada:   barreira móvel, bolas novas, escolha do melhor  angulo para os chutes, etc, etc.  Nada faltando para facilitar a vida dos  “craques”.

Na beira do gramado, um senhor magro e esguio, de cabelos grisalhos, calça jeans e  tênis,  a tudo observava.

Iniciada as cobranças, os chutadores vão se revezando nos chutes e, após várias tentativas, sem muito sucesso, a bola toca na barreira e corre até a lateral do campo onde estava o velho senhor.

Este, então, a levanta com o bico do tênis, faz duas embaixadas com surpreendente habilidade, a coloca debaixo do braço e se dirige para dentro do gramado.

– Vai tentar também, seu Valdir?  Brinca o jovem treinador.

O senhor de cabelos grisalhos ajeita carinhosamente a pelota no local da cobrança, dá quatro passos para trás, corre vagarosamente e toca na bola com incrível precisão.

Esta passa por sobre a barreira, descreve uma meia parábola e pousa suavemente na rede…

Como se fosse uma   “Folha Seca”.

E diante do olhar atônito daqueles jovens e milionários atletas, de camisas e chuteiras coloridas,  vai deixando lentamente o gramado.

Da arquibancada, um velho e solitário torcedor, como se assistisse a um vídeo tape do passado, exclama eufórico:

–   “VALEU   DIDI!”

Obs:  Valdir Pereira, o  grande Didi, faleceu  em  13/05/2001, aos  72 anos,  poucos  dias  após  essa  homenagem ser escrita.  Não chegou a vê-la publicada.

 

Victor Kingma