Victor
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MalucoBelezaRaul

O Velho Anarquista e o Maluco Beleza

 
Aquelas duas figuras eram personagens folclóricos da cidade. Não havia ninguém que não os conhecia.
 
Chico Vigilante, o Maluco beleza, que era assim conhecido por gostar de imitar seu grande ídolo Raul Seixas, não batia bem das bolas e sempre teve uma obsessão: ser guarda de trânsito.
 
Se na vida real isso não foi possível, por motivos óbvios, no seu mundo da fantasia optou por realizar o seu sonho.
 
Com o cabelo esvoaçado, como o seu ídolo, e com seu estridente apito na boca, há anos passava os dias na principal esquina da cidade “organizando” o trânsito.
 
Se por um lado era até motivo de diversão para os motoristas que por ali passavam, às vezes se tornava inconveniente.
Nessas ocasiões, dependendo da lua, entrava na frente dos carros, parava o transito e com um bloco de papel na mão, saia “multando” todo mundo. Era um transtorno total.
 
Já seu Malaquias era um anarquista teimoso e contestador. Vivia atazanando as autoridades do lugar, principalmente quando havia alguma festividade ou solenidade.
 
Com seu inseparável megafone na mão, sempre conclamava a população para se revoltar contra aquilo. Sobrava até para o vigário da paróquia, quando da organização de suas quermesses.
 
Isso estava causando uma grande preocupação nas autoridades municipais pois a prefeitura tinha lançado uma campanha para as pessoas ficarem em casa, pra evitar o contágio por uma inesperada doença que havia aparecido por ali.
 
Temiam que ele saísse na rua pregando a desobediência à determinação de recolhimento. Até porque vivia às turras com o prefeito.
 
E não deu outra: com a campanha a todo vapor e as pessoas se recolhendo em suas casas, seu Malaquias entra em cena.
 
Apesar da idade octogenária, nem os filhos e netos conseguiram convencê-lo a ficar em casa.
 
Seu Malaquias, o velho anarquista, pega o megafone e vai para a rua estimular a população a se rebelar contra o toque de recolher. Sérios problemas à vista.
 
Entretanto, para surpresa de todos, logo depois volta cabisbaixo e pensativo. E se recolhe em casa.
 
Um dos netos, incrédulo diante do que estava vendo, o indaga:
- Vovô! O senhor está bem? O que aconteceu pra não estar na rua anarquizando e contestando tudo? Por que voltou pra casa tão rápido?
 
- Você está escutando o barulho de algum apito, meu neto?
 
- Não vovô!
 
- Pois é! Depois de mais de trinta anos o Chico Vigilante não está na esquina comandando o trânsito. Essa doença deve ser muito séria mesmo!
 
Se até maluco tá se recolhendo eu é que não vou ficar na rua! Vamos aderir à campanha:
 
FIQUE EM CASA!
 
Victor Kingma