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Incrivel Stevie

 O INCRÍVEL STEVIE

A rivalidade entre os dois times daquelas cidades vizinhas extrapolava as quatro linhas e transformava o futebol em acirrada disputa política, principalmente pela velha rixa que havia entre os presidentes dos clubes, os coronéis Zeca e Noca.

Inimigos históricos e caciques da política regional, além de cartolas, eram os prefeitos e donos dos jornais de suas cidades. O diário de cada um, evidentemente, vivia criticando e patrulhando a administração do outro.

O time do coronel Zeca era conhecido como Dálmatas, por causa da camisa branca com manchas pretas. A equipe do coronel Noca, por sua vez, era chamada de Esquadrão de Aço, tendo em vista que a maioria de seus jogadores trabalhava na siderúrgica do patrono.

Certa vez, numa célebre partida, e já com a vitória garantida por 3 x 0, o técnico Tim, dos Dálmatas, lançou, aos 43 minutos do segundo tempo, um jogador de muletas, somente  para provocar o rival.

No dia seguinte, o jornal da cidade estampava na primeira página, a foto do atleta manco, com a seguinte manchete:

“Dálmatas vence Esquadrão de Lata jogando até de muletas”.

E isto só fez acirrar ainda mais a rivalidade.

Naquele mesmo ano, as cidades parariam, pois seria disputada a finalíssima da liga, justamente entre os Dálmatas e o Esquadrão de Aço. Nos botecos e nas esquinas, não se falava em outra coisa. Só que, dessa vez, as coisas pareciam estar melhores para o Esquadrão de Aço que, com melhor campanha, jogava pelo empate.

Faltando cinco minutos para o final e ainda vencendo por 1 x 0, o Esquadrão reforça a defesa e toca a bola, à espera do apito final do juiz. Depois era só comemorar.

De repente, o técnico Freitas, conhecido como Solich, velha raposa do futebol local, chama o desconhecido goleiro Stevie, um neguinho alto e magro que chegara há poucos dias na cidade e estava na reserva. Cochicha com o coronel Noca e o coloca no lugar do goleiro Baliza, a quem mandara simular uma contusão.

Enquanto o goleiro titular era retirado de maca do campo, o velho Solich entra em campo abraçado a Stevie, como se desse instruções, e o leva até o gol. O jogo fica tenso, mas a defesa local, bem postada, não permite que o inexperiente goleiro seja acionado. Este, alheio ao clima do jogo e parado debaixo das traves, mãos na cintura, aparenta uma calma impressionante.

Aos 43 minutos, entretanto, aconteceu o lance que poderia mudar o rumo da partida: o zagueiro central do Esquadrão coloca a mão na bola dentro da área, e o juiz, incontinente, marca pênalti, para desespero da torcida e do coronel, que já comemoravam o título. Se convertido em gol e jogando contra um goleiro inexperiente, o finalzinho do jogo seria dramático, e tudo poderia acontecer.

O atacante Quarentinha, maior ídolo dos Dálmatas e dono de um potente chute de canhota, se prepara para bater. O velho Solich, postado atrás do gol passa as instruções para seu jovem goleiro:

– Fique parado, imóvel… Quando o juiz apitar conte até três e se atire para a direita… Ele só chuta ali…

O juiz apita: um, dois, três! Quarentinha chuta e Stevie se atira, defendendo sensacionalmente.

O jogo termina logo depois, e a torcida invade o campo, carregando o bravo arqueiro nos braços.

No outro dia, o jornal do coronel Noca estampa na primeira página, em letras garrafais:

Esquadrão de Aço humilha Cachorrada:

“Stevie Wonder, goleiro cego, defende pênalti!”.