Victor
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O CARREIRO E A COMADRE  (Do livro A Oficina do Tião Sapateiro)

 

 

Carro de boi

Uma das profissões mais conhecidas da roça é o Carreiro. Aquele a quem cabe a tarefa de comandar um dos mais antigos e tradicionais meios de transporte rural: “O carro de bois”.

Normalmente, é uma pessoa de postura imponente e voz grave. Com uma grande vara de madeira, contendo na extremidade uma ponta de ferro, comanda as juntas de bois. Estas, por sua vez, devem ser sempre formadas por animais do mesmo tamanho, para um não sobrecarregar o outro. Além disso, devem ter nomes sonoros como:

Segredo, Cupido, Sereno, Delgado, Recreio, entre outros que, sem dúvida, facilitam a comunicação.

Sempre conta com a providencial ajuda do candeeiro, normalmente um moleque da fazenda, que vai à frente, ajudando a direcionar os animais.

Januário era um carreiro muito conhecido; talvez o melhor de todos. Não havia ninguém na região que já não tivesse ouvido seus gritos de incentivo aos bois de carro ecoando por toda a redondeza:

– Avança Sereno!… Sossega Sultão!

– Recua Formoso!… Avança Segredo!.

E Januário seguia seu trabalho, no dia a dia, ladeira acima, ladeira abaixo… Ora na colheita de milho, ora no transporte de lenha ou capim. Sempre impecavelmente vestido e com seu inseparável chapéu de couro.

Quando o carro não estava muito cheio, deixava a molecada pegar carona na volta da escola e era uma festa. E sentia orgulho de sua profissão.

Naquele fim de semana, fora até um arraial vizinho buscar um carregamento de farelo. No caminho, ofereceu carona para sua comadre Rosa. Morena de meia idade, era mulher bonita e formosa. Esposa de seu grande amigo e compadre Noca, e com quem, no passado, tivera um romance.

E comandava o carro de boi, puxado por “Cupido e Recreio” e “Segredo e Delgado”, duas das melhores duplas ou juntas que havia na fazenda. Entre um papo e outro, não tirava os olhos das coxas da comadre que se fazia de desentendida.

E a viagem prosseguia, deixando compadre Januário cada vez mais intrincado.

– Avança Recreio!… Recua Cupido!…

E ao som característico do carro de boi, ia em frente. Ao passar debaixo de uma grande árvore, local onde no passado costumava se encontrar com a comadre, Januário, fingindo comandar os bois, insinua:

– Sossega Segredo, avança Delgado!.

– Esta árvore frondosa me lembra o passado!…

E Comadre Rosa parecia não perceber a cantada.

Lá pelas tantas, Januário, com um olho na estrada e outro na comadre, prossegue comandando a dupla de bois:

– Recua Cupido!… Avança Recreio…

– Compadre quer cantar a comadre, mas ta com receio!…

Comadre Rosa finge de desentendida e Januário repete:

– Avança Cupido!… Recua Recreio…

– Compadre quer cantar a comadre, mas ta com receio!

E já ia entoar o canto pela terceira vez, quando a comadre interrompe:

– Avança Recreio!… Recua Cupido!…

– Se tivesse cantado já tinha conseguido!…

 

Victor  Kingma

Do livro A Oficina do Tião Sapateiro