Victor
Kingma
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.: Meus escritos

 

A capa do meu caderno

 

cadernos antigos

Até o terceiro ano primário  estudei na Escola Rural Maria Luiza Kingma, em Mantiqueira.

Lembro-me com muita saudade da minha escola, um pequeno cômodo de terra batida, às margens do rio Pinho. Não havia carteiras escolares e os alunos se sentavam, lado a lado, em extensos bancos de madeira. Vire e mexe os bancos tombavam jogando todo mundo no chão, para alegria dos meninos e desespero das meninas que tinham as saias levantadas.

Guardo muitas lembranças das abnegadas professoras Terezinha e Nice, minhas primeiras mestras, e até do austero diretor Olinto de Paiva, conhecido como Seu Capitão. Este, muitas vezes nos submetia, com o aval de nossos pais, a penosos castigos como ajoelhar em caroços de milho com o rosto virado para a parede. Quando a indisciplina era mais séria, exagerava ainda mais na dose, aplicando corretivos com varas de marmelo que deixavam nossas pernas todas marcadas.  Mas, no fundo, queria o nosso bem.

Que boas lembranças tenho do recreio, lá da escolinha de Mantiqueira. Durante os 30 min, podíamos fazer de tudo: jogar bola de gude, rodar pião ou brincar de pique, brincadeiras hoje em extinção devido à era dos games eletrônicos.

O material escolar era o básico: caderno, lápis, tabuada e borracha.  A borracha era encaixada na ponta do lápis. Quando a perdíamos costumávamos usar miolo de pão para apagar os erros. Aí borrava tudo. Caneta, nem pensar. Era artigo de luxo. Quase todos os alunos levavam os cadernos para a aula numa sacola feita de saco de farelo, que tinha o nome de embornal.

Porém, o fato que me traz as maiores recordações daquela época era a capa dos cadernos. Quase sempre traziam estampados os símbolos da pátria. Nunca esqueci de um que ganhei de minha tia Luquinha: tinha na capa a Bandeira Nacional e na contracapa a letra do Hino à Bandeira, escrita por Olavo Bilac para a melodia de Francisco Braga. Até porque, era o hino que eu mais gostava.

Todo ano, em 19 de novembro, na solenidade que a escola sempre fazia para comemorar o Dia da Bandeira, estávamos todos lá, perfilados, cantando:

Salve lindo, pendão da esperança!

Salve o símbolo, augusto da paz! 

Tua nobre presença à lembrança

A grandeza da Pátria nos traz.

Todos os alunos conheciam a letra, afinal ela estava impressa na capa dos nossos cadernos. Hoje, os cadernos trazem em suas capas multicoloridas, retratos de artistas, motos, super heróis e tantos outros motivos de merchandising. Se ganharam na qualidade do material, perderam naquilo que é fundamental:

A mensagem, o culto aos símbolos nacionais e ao sentimento de patriotismo para os alunos que iniciam a vida escolar.

Victor Kingma

Quando a calça LEE era o sonho de consumo

 

Naquele tempo era assim…

 

James deanAs últimas décadas têm sido marcadas pelas grandes mudanças nos hábitos e jeito de se vestir das pessoas, influenciadas, principalmente, pela massificação dos meios de comunicação como, por exemplo, a televisão. Assim, a jóia, roupa ou o tênis da moda usados pelos artistas, na novela da televisão, logo passam a ser cobiçados pelos jovens e adolescentes que não querem ficar fora da “onda”. É o modismo que invade nossas casas todos os dias.

Entretanto, para aqueles jovens que, como eu, viveram a juventude nos anos sessenta e início dos anos setenta, o grande sonho de consumo era ter uma calça LEE, importada dos Estados Unidos.

Se naquela época, no dia a dia, a vida da juventude consistia na simplicidade da vida no bairro, no colégio, nas matinês dos cinemas, o futebol nos campinhos de pelada ou nas diversas brincadeiras de rua, nos fins de semana, nos bailes ou domingueiras dançantes, usar uma calça LEE era sinônimo de status, bom gosto, um charme a mais para conquistar a namorada.

O jeans, popularizado por James Dean, no cinema, no final da década de cinqüenta, representava o ideal da juventude rebelde, transgressora, o cowboy do asfalto. Juventude que, com seus cabelos compridos e guitarra na mão, começava a transgredir os costumes vigentes na época, seja no jeito de se vestir, preparar seu drink com mistura de sabores, na música ou no comportamento contestador.

Hoje em dia, muitas são as opções dos jovens que querem usar roupas de uma marca famosa, até pela facilidade cada vez maior para adquiri-las. Entretanto, com certeza, nenhuma delas, por mais badalada que seja, terá o charme que tinha, na época, a velha e cobiçada calça LEE.

Victor Kingma