Victor
Kingma
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.: Histórias e causos do futebol

Causos da bola

Dentadacampo

 Dentada em campo

Cachoeirinha e Jacutinguense disputavam o título em Jacutinga do Norte numa partida truncada e violenta. O experiente árbitro da capital, requisitado para apitar a partida, mantinha a disciplina distribuindo uma série de cartões amarelos.

De repente, numa disputa de bola envolvendo vários jogadores na defesa do Jacutinguense, o avante do Cachoeirinha dá um grito de dor e cai gemendo no gramado, ferido por uma violenta dentada de um rival.

O Juiz, que estava distante do lance, corre até o local e ao ver as marcas dos dentes na orelha do atacante, que se esvaía em sangue, não titubeia: tira o cartão vermelho e expulsa de campo o defensor que estava mais próximo da jogada. Começa então um tremendo sururu…

Revoltado com a expulsão o becão de quase 2 metros de altura parte possesso pra cima do árbitro e todos no estádio temem por um desfecho trágico.

Mas, ao chegar em frente ao juiz, o gigante de ébano põe as mãos pra trás e exibe para “sua senhoria” o sorriso salvador, onde não se via sequer um dente. Não podia mesmo ser ele o agressor, o autor da dentada.

Diante da prova irrefutável, e sem conter o riso pela cena inusitada, o árbitro cancela a expulsão do vigoroso zagueiro banguela, esteio da zaga do Jacutinguense.

Victor Kingma

Do livro Dali o Joca Não Perde

ZéGaveta

 

 A súmula do  Zé Gaveta

Partida memoravel  da liga Mantiqueirense.  O time de Mantiqueira, o Catauá, enfrentaria na final a  equipe do distrito vizinho de Passa Três. E novamente, o tradicional e esburacado estádio “Mantiqueirão”   seria o palco da grande decisão.

No grande dia a bola rola em clima de enorme tensão e desconfiança, pois os visitantes não se conformavam com a indicação do controvertido árbitro Zé Gaveta para apitar a  final.

Empurrado por sua fanática torcida, que lotava os morros da periferia, o Catauá , que precisava da vitória, joga o tempo todo no ataque, mas o gol  não sai.

Zé Gaveta, até que tenta dar uma mãozinha: em duas jogadas duvidosas dentro da área, marca pênalti.  Mas Feitiço, goleiro desprezado pelo Catauá e que estava atuando pelo adversário, se vinga e,  nas duas ocasiões, defende  espetacularmente as penalidades.

O Jogo, tenso,  se aproxima do fim e o Passa Três está com a taça nas mãos.  Entretanto, um acontecimento extra campo começa a preocupar os seus dirigentes: o coronel Sá Fuentes, o lendário fundador do Catauá, que devido à idade avançada já não freqüentava com tanta assiduidade os jogos, chega ao Mantiqueirão.  Montado em seu cavalo, traz, como era tradição dos Sá Fuentes, o  famoso trabuco 38 na cintura.

Informado de que o jogo estava acabando e que seu “amado time” ia deixando fugir o titulo, o coronel adentra a cancha montado no tordilho e disparando tiros  à torto e a direito.

Seguem-se quinze minutos de pânico total. Os jogadores, apavorados, fogem para o vestiário, e a partida, é interrompida.

A decisão fica em suspense até o dia seguinte, quando “Sua Senhoria”  entrega na sede da liga regional,  a súmula  esclarecedora.

Eis o relato “insuspeito” do árbitro Zé Gaveta:

“Aos 42 minutos do segundo tempo, com o placar em 0 x 0, a peleja teve que ser interrompida, pois a cancha foi invadida por um cavalo selvagem, que corcoveava, alucinado, e desferia coices para todo lado.

O Coronel  Sá Fuentes, que montava o quadrúpede, fazia de tudo para contê-lo, mais a besta fera mostrava-se indomável. Preocupado com a segurança dos jogadores o coronel ainda desferiu vários tiros para alertar os atletas  quanto à presença do feroz animal.

Registro ainda que alguns incidentes foram verificados e dois desses tiros de alerta acabaram furando uma das bolas e atingindo, por casualidade, o  pé do atacante Canhoteiro, do Passa Três.

Serenados os ânimos fui aos vestiários e chamei os times para jogarem os três minutos finais. Entretanto, como a equipe do Passa Três, “INEXPLICAVELMENTE” se negava a voltar a campo, dei como encerrada a contenda e registrei a consequente   vitória do Catauá, que assim se sagrou campeão, por causa do abandono do campo por parte do adversário.”

 

Victor Kingma

Do livro Dali o Joca Não Perde