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.: Histórias e causos do futebol

“El Milagrero”

elmilagrero

Memorável partida da liga  Mantiqueirense,  na Zona da Mata mineira.  O time local, o Catauá, após vários anos de espera, e mesmo com time modesto, estava na final.  Para tanto, o Coronel Sá Fuentes, o lendário presidente do clube, teve que trazer de fora, e a peso de ouro, o técnico paraguaio Horácio Miranda, “El Milagrero” , como era conhecido, devido ao fato de reverter resultados impossíveis após suas preleções no intervalo dos jogos.

Entretanto, naquela decisão nem santo parecia dar jeito para o Catauá: mesmo atuando em casa e precisando apenas do empate, jogava com apatia e já no primeiro tempo perdia por 3 x 0.

Portas fechadas no vestiário, “El Milagrero” reúne os jogadores e tenta motivá-los para a reação impossível.

Passados os 15 minutos do intervalo, o time volta para o segundo tempo com uma modificação ousada: o esforçado centroavante Dinho no lugar de Duda, o astro do time, que tivera atuação apagada.

E “El Milagrero” parecia que ia operar mais um de seus milagres: o time voltou voando após as suas “instruções”.  O substituto Dinho, então, apronta uma correria infernal. Com 20 minutos já tinha feito dois gols.  A torcida se empolga.  O empate era questão de tempo.

De repente, Dinho recebe uma bola em completo impedimento; o bandeirinha acena e o juiz apita a banheira…

Mas o avante não pára. Avança com a bola, chuta para o gol e sai vibrando como um louco, comemorando o gol que seria do título. Alucinado, pula o alambrado e vai festejar com a torcida, apinhada nos morros em volta do Estádio Mantiqueirão.

Somente ao virar-se para o campo, Dinho, ainda muito agitado, notou que o gol tinha sido anulado.

Por ter saído de campo para comemorar, o avante foi expulso e uma grande confusão se formou. O Catauá, jogando o restante do jogo com dez jogadores, acabaria perdendo a partida e o titulo.

Na segunda feira vazaria a notícia esclarecedora e o porquê do milagre não ter sido completo: “El Milagrero” cometeu dois equívocos que foram fatais: excedeu-se na dose do chá “batizado” servido ao atacante, e, pior ainda, esqueceu-se de lembrá-lo do aparelho auditivo que sempre usava nos jogos. Aliás, aparelho que lhe rendera o nome, que era uma derivação do apelido: SurDINHO…

 

Victor Kingma

Do livro “dali o Joca Não Perde.”

 Concentração mal assombrada

Causos da bola

Concentraçãomalassombrada O  antigo casarão que há décadas servia de concentração para o Grotense,  time da mística cidade de Grota dos Mistérios, tinha a fama de ser mal assombrado. No silencio da noite barulhos de bola quicando costumavam ser ouvidos no  salão que ficava  na parte superior do sobrado.

Dizia a crença do povo ser o fantasma do finado goleiro Mão de Gato que, no passado, tornou-se  lenda na região pela incrível elasticidade e saltos acrobáticos que realizava nos jogos. Após a sua morte sua alma penada passara  a habitar o velho sobrado  que pertencera a seus avós.

Verdade ou não, o certo é que, quando tinham que se concentrar, muitos  atletas ficavam  super apreensivos.  Numa véspera de jogo alguns jogadores mais jovens, incrédulos no que ouviam, resolveram desmistificar a lenda e ainda tirar o maior sarro com os  colegas mais veteranos, crentes nas  coisas do além. Quando todos já estavam dormindo os garotos vestiram- se como fantasmas, usando os lençóis de suas camas,  e iniciaram um animado bate bola no local  onde, rezava a  crendice, era mal assombrado.

À medida que o  pessoal  ia acordando com o barulho da bola  um verdadeiro terror  tomou  conta da concentração. Eis que  um dos brincalhões  se empolga e dispara um  medonho petardo  que vai  em direção   aos valiosos vitrais do casarão. Todos levam a mão na cabeça, certo que isso ia causar um grande prejuízo, e, certamente,   uma severa punição  pela diretoria.

Um dos “fantasmas”, porém, se atira na bola como um felino e  num voo espetacular e acrobático  faz a defesa,  antes que a  pelota  estilhaçasse os vidros. Instintivamente, e sabendo que somente uma pessoa seria capaz de fazer uma proeza daquelas, todos começam a contar os  fantasmas presentes no salão. Só então se dão conta que tinha um  a mais.   MÃO DE GATO!!!  Gritaram todos, num grito uníssono  e apavorante.

O que se viu depois foi os aprendizes de  fantasmas saindo em disparada pelas escadarias e corredores do velho casarão, derrubando tudo que estava pela frente.  A partir desse  dia  o time do Grotense passou a se concentrar na pensão de Dona Filomena. Muito mais acanhada, mas bem menos sinistra.

 

Victor Kingma

Do livro Dali o Joca Não Perde