Victor
Kingma
header
header
Facebook
Visitante nº: 61965
.: Histórias e causos do futebol

A súmula do árbitro Zé Gaveta

Causos da bola

ZéGavetaPartida memoravel  da liga Mantiqueirense.  O time de Mantiqueira, o Catauá, enfrentaria na final a  equipe do distrito vizinho de Passa Três. E novamente, o tradicional e esburacado estádio “Mantiqueirão”   seria o palco da grande decisão.

No grande dia a bola rola em clima de enorme tensão e desconfiança, pois os visitantes não se conformavam com a indicação do controvertido árbitro Zé Gaveta para apitar a  final.

Empurrado por sua fanática torcida, que lotava os morros da periferia, o Catauá , que precisava da vitória, joga o tempo todo no ataque, mas o gol  não sai.

Zé Gaveta, até que tenta dar uma mãozinha: em duas jogadas duvidosas dentro da área, marca pênalti.  Mas Feitiço, goleiro desprezado pelo Catauá e que estava atuando pelo adversário, se vinga e,  nas duas ocasiões, defende  espetacularmente as penalidades.

O Jogo, tenso,  se aproxima do fim e o Passa Três está com a taça nas mãos.  Entretanto, um acontecimento extra campo começa a preocupar os seus dirigentes: o coronel Sá Fuentes, o lendário fundador do Catauá, que devido à idade avançada já não freqüentava com tanta assiduidade os jogos, chega ao Mantiqueirão.  Montado em seu cavalo, traz, como era tradição dos Sá Fuentes, o  famoso trabuco 38 na cintura.

Informado de que o jogo estava acabando e que seu “amado time” ia deixando fugir o titulo, o coronel adentra a cancha montado no tordilho e disparando tiros  à torto e a direito.

Seguem-se quinze minutos de pânico total. Os jogadores, apavorados, fogem para o vestiário, e a partida, é interrompida.

A decisão fica em suspense até o dia seguinte, quando “Sua Senhoria”  entrega na sede da liga regional,  a súmula  esclarecedora.

Eis o relato “insuspeito” do árbitro Zé Gaveta:

“Aos 42 minutos do segundo tempo, com o placar em 0 x 0, a peleja teve que ser interrompida, pois a cancha foi invadida por um cavalo selvagem, que corcoveava, alucinado, e desferia coices para todo lado.

O Coronel  Sá Fuentes, que montava o quadrúpede, fazia de tudo para contê-lo, mais a besta fera mostrava-se indomável. Preocupado com a segurança dos jogadores o coronel ainda desferiu vários tiros para alertar os atletas  quanto à presença do feroz animal.

Registro ainda que alguns incidentes foram verificados e dois desses tiros de alerta acabaram furando uma das bolas e atingindo, por casualidade, o  pé do atacante Canhoteiro, do Passa Três.

Serenados os ânimos fui aos vestiários e chamei os times para jogarem os três minutos finais. Entretanto, como a equipe do Passa Três, “INEXPLICAVELMENTE” se negava a voltar a campo, dei como encerrada a contenda e registrei a consequente   vitória do Catauá, que assim se sagrou campeão, por causa do abandono do campo por parte do adversário.”

 

Victor Kingma

Do livro Dali o Joca Não Perde

 

 

Honrado, mas apaixonado

Causos da bola

Honradomaisapaixonado

Almir Amarante, conhecido como Almirante, era um árbitro muito respeitado no interior mineiro. Justo e severo na aplicação das regras, vira e mexe era requisitado para apitar  partidas importantes.  Pesava contra a sua reputação apenas uma atuação muito suspeita numa recente decisão regional. Chegaram a falar que estaria comprado.   Naquele jogo polêmico marcou dois pênaltis inexistentes a favor do Tigre FC, o “Tigrão”, time  pelo qual, diziam, tinha uma paixão secreta e incontrolável.  Devido ao ocorrido, nunca mais apitou qualquer partida desse clube.

Na decisão daquele ano, uma autêntica guerra entre dois tradicionais rivais da região, e com o Tigrão fora, Almirante mais uma vez foi escalado para apitar a decisão.

Na véspera do jogo o austero árbitro recebe em sua casa a visita do poderoso cartola de um dos clubes, que, desconfiado da propalada honestidade do juiz, lhe oferece uma polpuda soma para facilitar o jogo para seu time.  Imediatamente ele o expulsa de casa e todos acabam na delegacia, onde o árbitro registrou queixa por tentativa de suborno. Frente a frente com o delegado, os dois tentam se explicar:

–   Este cartola desonesto tentou me subornar!  Exclama o árbitro.

–  Quem  é esse juiz para falar em honestidade,  seu delegado!  Todos aqui na cidade sabem que ele roubou descaradamente para o Tigrão naquela decisão, marcando dois pênaltis absurdos, defende- se o dirigente.

O delegado, que conhecia bem a fama de subornador do cartola e também a polêmica história dos pênaltis, tenta colocar panos quentes:

–  Não é melhor pros dois encerrar aqui mesmo esse assunto? Isso vai acabar em processo.  E todos vão ter que se explicar perante a lei. Por que não retira a queixa, seu Almirante?

–  Não retiro, seu delegado.  Vou até o fim, pois sofri uma tentativa de suborno.

–   E a história dos pênaltis?   O que vai dizer pro juiz lá no fórum?

–  Não sou homem de mentir, seu delegado!  Vou dizer a verdade. Que inventei aqueles pênaltis por amor ao Tigrão.  Fui traído pela paixão de torcedor.   Não recebi nada pelo que fiz. E, revoltado, concluí:

– Mas suborno, seu delegado, eu não admito. Sou um homem honrado!

Victor Kingma

Do livro  Dali o Joca Não Perde