Victor
Kingma
header
header
Facebook
Visitante nº: 61186
< Voltar

 Feitiço contra o feiticeiro

 

                                                                              No seu tempo de jovem, lá pelos meados da década de 40, Coronel Parentinho, juntamente com seu cunhado Tizeca e o amigo Adalberto Cacorrendo assustado1britinho, amigos inseparáveis, costumavam aprontar verdadeiras facetas com os filhos dos empregados da fazenda. Contavam histórias fantásticas sobre almas penadas e simulavam sessões de magia, para desespero dos presentes, muitos dos quais jamais haviam saído do lugarejo. Depois da bagunça feita, sobrava para sua esposa, Dona Carola, que tinha que organizar toda aquela sujeira, juntando pedaços de velas e resto de pólvora queimada.

Um dia, exageraram na dose: De comum acordo com um amigo do coronel que o visitava, uma figura muito magra e de olhos fundos, espalharam que este fazia aparecer alma do outro mundo e que faria uma demonstração, sexta feira, na fazenda. A notícia logo se espalhou e uma grande expectativa se criou.

No dia do evento, o movimento era grande, com pessoas chegando de toda parte.

Trancados a sete chaves, os quatro preparavam o “teatro”.

Espalharam pólvora no centro do salão e cobriram com um caixote de madeira. Ao redor, e em cima do estranho altar, acenderam várias velas. As cadeiras foram colocadas em círculo, onde ficariam os assustados assistentes da “sessão macabra”.

Assim que terminaram os preparativos, todos foram convidados a entrar no imenso salão e a porta foi trancada. Do lado de fora, ficaram apreensivas, Dona Carola e Tatá, uma espécie de governanta da família. As duas se negavam a participar daquilo.

À medida que o tempo passava, ficavam mais preocupadas com o alvoroço que se ouvia lá dentro, na encenação que antecedia à “peça’’. Pediram, então, para Joaninha, uma mulatinha de olhos arregalados que trabalhava na cozinha da fazenda, para subir pelo alçapão e observar tudo, pelo buraco da esteira, que servia de forro. Evidentemente, tomando cuidado para não cair dos paus de sustentação da esteira. E assim foi feito:

Joaninha, muito curiosa e vestida com somente uma camisola preta, ficou lá em cima, pendurada e silenciosa, assistindo a tudo. Depois relataria para a patroa o acontecido.

Começada a sessão, o “falso feiticeiro”, coberto com uma capa preta e com os olhos mais fundos ainda, acentuados pelo contorno de tinta preta, finge se concentrar. Depois, pede aos assustados espectadores:

Agora, todos devem fechar os olhos e contar até cinco… Depois tudo irá escurecer e uma alma penada descerá até nós.

– Um, dois, três, quatro, cinco…

Enquanto Coronel Parentinho apaga as luzes, o “Feiticeiro” grita:

– desça alma penada!

Neste momento, Tizeca levanta o caixote…

E Cabritinho acende a pólvora.  Uma nuvem de fogo sobe na escuridão.

Apavorada com toda aquela confusão Joaninha se desequilibra… Pisa na esteira do forro, que arrebenta… E com os olhos mais arregalados ainda cai, seminua, no meio do fogo.

A gritaria é geral, e todos, espectadores e “feiticeiros”, saem em debandada, derrubando tudo que estava a sua frente.

“O feitiço virou contra o feiticeiro.”

Do livro A Oficina do Tião Sapateiro