Victor
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Empurrando o carro

Barbosa, o pessimista

Barbosa é daquelas figuras emburradas, que enfrenta todas as situações, sempre prevendo o pior. Aquele tipo de pessoa que cada um de nós já deve ter conhecido. Um autêntico “azarão”.

Certa vez, convidado pelos amigos para participar de uma pescaria no final de semana, foi logo rechaçando:

– Vocês estão doidos, enfiar meu carro naquele buraco, nunca!

Além do mais, os pneus estão meio carecas e só tem um posto de abastecimento em todo o percurso. – Continuava, em seu discurso pessimista.

Com muito sacrifício, os amigos o convenceram a participar do animado “Weekend”. Mas isso, somente após trocarem, valendo-se de uma “vaquinha”, os dois pneus que estavam mais gastos.

E lá se foram. Após umas duas horas de viagem, tudo era só alegria, e Barbosa até que se divertia.

Entretanto, bastou o tempo começar a fechar um pouco e algumas nuvens negras surgirem no céu, para começar as costumeiras lamentações e previsões pessimistas:

– Eu falei pra vocês, olha a merda aí!

– Calma, Barbosa!

– Calma nada! Tínhamos que trocar todos os pneus.  Se chover, vamos começar a derrapar ou ficar atolados nesse fim do mundo.

Mal acabou de falar e pronto: numa subida íngreme o carro cai numa valeta na esburacada estrada. E o pior, o pneu dianteiro furou…

Barbosa enfurecido prevê:

– Agora só falta o estepe estar vazio!

E não deu outra: estepe também vazio. Agora, para desespero de todos.

Mas, nem tudo parecia perdido. Alertado pelo amigo Getulinho, que comandava a então “aventura”, todos se voltam para uma placa no alto da colina:

“Posto de abastecimento a 200 metros”… Com restaurante e borracheiro.

– Tá vendo, Barbosa!

– Deixa de ser pessimista!

– Não sei por que tamanha euforia! Ainda temos que tirar o carro desse buraco e rolar os pneus ladeira acima, até a borracharia,  responde furibundo.

Após tirar o carro do buraco lá foram todos empurrando os pneus ladeira acima pela estrada  poeirenta, até a borracharia.

Já estavam quase no topo da estrada quando a chuva começou a cair. Apressam-se, mas, de repente, são interrompidos por um cortejo fúnebre.

– Isto não está me cheirando bem! Vocifera o mal-humorado Barbosa…

– Enterro em lugarejo é uma festa e todos devem estar aí consolando a viúva.

– Por certo, a borracharia deve estar fechada! Continua a lamuriar o pessimista.

Após esperarem por quase 30 minutos a passagem do cortejo, Barbosa impressionado com o número de pessoas presentes ao enterro e como se pressentisse alguma coisa, pergunta a um velho que, contrito, segurava o chapéu contra o peito:

– Amigo, quem faleceu no Vilarejo?

– Compadre Zeca borracheiro, moço!…

 

Victor Kingma

 

Do livro A Oficina do Tião Sapateiro.