Victor
Kingma
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A visita do Bastião

Domingo de manhã. Alguém bate palmas lá fora da casa.

Desligo o rádio, meu velho companheiro, e vou atender.

Arrasto a cortina da porta e olho pela fresta para identificar qual a visita da vez – como sempre fazemos aqui em casa, antes de acionar a abertura do portão.

Aí vejo um senhor, com uma bengala na mão, de barba e cabelos brancos, que me fez lembrar do personagem Pai Tomáz, morador da cabana da famosa novela, dos anos 60.

O rosto me parecia familiar, mas não consegui identificar quem era aquele senhor alto e magro, de ombros meio curvados pelo peso da idade.

A surpresa veio quando abri a porta e escutei a saudação famíliar:

- abre logo essa catraca aqui, Alemão! Não conhece mais o seu tio?

Aí, surpreso, logo o identifiquei, rebobinando a fita na minha memória para mais de cinquenta anos atrás.

Era o Bastião, ex-terrereiro de meu pai, dos tempos da fazenda.

Não tinha como eu não lembrar. Até porque, poucas pessoas me chamariam por esse apelido de infância.

Aliás, tinha sido ele quem o colocara, confundindo minha origem europeia, que na verdade é holandesa e não alemã.

Grande contador de histórias, muitas nem tanto verídicas, ele era tão amigo do meu pai e íntimo da família, que considerava, eu e meus irmãos, realmente seus sobrinhos. E costumava nos chamar assim.

Só que, há tempos, eu tinha pedido contato com essa figura tão marcante, retratada, inclusive, num de meus livros. Não sabia por onde andava e se ainda estava vivo.

A surpreendente e agradável visita se prolongou por toda a manhã.

A lucidez e riqueza de detalhes com que recordava das histórias do passado era impressionante.

Acontecimentos que eu, bem mais novo que ele, não lembraria jamais.

Lá pelas tantas, conversa vai e conversa vem, pergunto:

- Qual o segredo pra manter essa saúde e tanta memória, meu amigo?

- Nada demais, moleque! Apenas uma garrafa de vinho todos os dias.

- Aliás, arranja um cascalho aí pro velho comprar umas garrafas do remédio da semana!

Após guardar na velha carteira de plástico, a generosa e justa quantia recebida, se despede:

- Preciso picar a mula! Vem chuva aí! – Conclui, com linguajar típico dos saudosos tempos da vida na roça.

E sem disfarçar a alegria pelo reencontro familiar, se dirige à porta de saída, amparando as pernas cansadas, na velha bengala. Afinal o peso dos anos alguma sequela tinha que deixar.

Do portão acena se despedindo, mas ainda dá tempo para eu fazer a pergunta que minha curiosidade não poderia deixar passar:

- Com quantos anos você está Bastião?

- Oitenta e cinco, Alemão!

O grande Bastião, (na roça, todo Sebastião, vira Tião, ou Bastião), continuava o mentiroso de sempre.

Se ele tinha sido contemporâneo de meu pai, que, se vivo estivesse, estaria completando noventa e oito anos, essa contagem não batia.

Bem, mas isso foi apenas um detalhe.

A verdade é que a partir daquele domingo, nunca mais deixei de seguir a longeva receita do Bastião.

Victor Kingma

Ps:!
Já que terminei o texto, bora tomar minha taça de vinho!
Tim,Tim!