Victor
Kingma
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Tocando a campainha

A campainha ( a movimentada vida pacata)

 

Era um dia qualquer, como todos os outros, na minha pequena cidade. Tinha acabado de colocar o café na xicara. O restante que ainda tinha no bule. O pão de queijo, ainda quente, me esperava na mesa, à minha frente.
Me preparava para usufruir de uma de minhas manias quando, de repente…

Toca a campainha!

É o verdureiro:

– Tá precisando de verduras hoje, amigão?

– Hoje não, flamenguista! Estamos indo pro sítio! – Respondo, sem antes deixar de tabular uma conversa de rubro-negros:

– Gostou da vitória de ontem?

– Show, né amigão! Tá difícil segurar o Gabigol! – Completa, orgulhoso, o grande Quinca, antes de se afastar de bicicleta, com o balaio repleto de couve, alface, tomate e cheiro verde.

Retorno para a mesa: o café e o pão de queijo esfriaram. E café e pão de queijo requentados ninguém merece. O desjejum ficou comprometido.

Vou para o computador e começo a escrever o final de mais um capítulo do meu novo livro. Afinal, assim como o café e o futebol, a literatura também é minha cachaça, aperitivo que, aliás, nem tomo. Faltam alguns retoques para concluir o texto, quando…

Toca a campainha!

– É o amigo Gleison, da mercearia em frente à minha casa, pedindo os cascos das garrafas de cerveja do churrasco da véspera que eu, inadvertidamente, tinha esquecido de devolver.

Tudo bem que a conta pode ser acertada todo fim de mês, mas os cascos precisam ser devolvidos para o providencial reabastecimento do estabelecimento.

Volto para o computador e volto a escrever. Estou quase encontrando as palavras certas para encerrar o capítulo do livro, quando novamente…

Toca a campainha!

Melhor deixar para concluir depois. Salvo o arquivo e vou atender.

É o rapaz do transporte Escolar pedindo se pode estacionar a Van por uns minutos em frente ao portão da minha garagem, enquanto as crianças desembarcam para a aula, na escola ao lado.

Favor consentido, assim que viro as costas e fecho a porta, outro barulho ecoa…

Claro, é a campainha!

– Oi mano, estou vindo da feira! Trouxe o café torrado na hora que você me encomendou! Dessa vez não esqueci! – Completa o mano José, que antes de se despedir não deixa de reclamar um pouco das dores da artrose que tanto o incomoda.

Me dirijo até a cozinha para guardar o pó de café mas, antes de despeja-lo na lata…

Toca a campainha!

É Dona Sebastiana, a vendedora de pão de queijo, que veio entregar a encomenda da semana.

Recolho os pacotes da iguaria genuinamente mineira e já ia guardar na geladeira quando, ao sentir o aroma inigualável saindo do pacote aberto de café, ao lado da lata antiga de Biscoito Aymoré…

Coloco a água pra ferver, os pães de queijo no forno, desligo a cigarra da campainha e volto para o início desse texto.

Victor Kingma

PS: Quem não mora no interior nunca vai saber o que é viver uma vida pacata, numa casa tão movimentada.

Em tempos de isolamento, que saudade do toque da campainha da minha casa!